Os portais de partilha de vídeos como o YouTube são a maior fonte de incómodo na Internet para os jovens europeus dos nove aos 16 anos, que os associam ao risco de encontrar online imagens violentas ou pornográficas.

Lusa / EDUCARE|2013-02-05

A conclusão consta de um estudo divulgado hoje, coordenado pelo projeto europeu “EU Kids Online”, que congrega as respostas de quase dez mil jovens europeus, para aferir o que incomoda as crianças e jovens dessa idade ao usarem a rede. Conduzido em 25 países europeus, incluindo Portugal, e divulgado na data em que se assinala o Dia Europeu da Internet Mais Segura, este estudo aponta os portais de partilha e alojamento de vídeos, as páginas na Internet na sua generalidade, as redes sociais e os jogos como as principais fontes de incómodos e riscos para os mais novos.

Das 9904 respostas analisadas, 32% dos rapazes e raparigas inquiridos consideram os portais de partilha de vídeos como as plataformas de maior risco para encontrar online imagens violentas ou pornográficas, com muitos deles, alguns apenas com 9 anos, a descreverem cenas de sexo explícito, de violência ou de crueldade animal, como exemplos daquilo com que já se depararam online, inadvertidamente.

Nas respostas, os jovens europeus exprimiram também as suas emoções perante aquilo com que foram confrontados, sendo que o medo representa 54% das reações perante a violência, e a repulsa 59% das reações perante a pornografia.

“Uma das conclusões que esta análise evidenciou é que as crianças estão muito incomodadas com conteúdos violentos e pornográficos, que aparecem até associados a um tom humorístico, mas que elas próprias dizem que não acham graça nenhuma”, disse à Lusa Cristina Ponte, coordenadora do “EU Kids Online” em Portugal.

Quanto às redes sociais, como o Facebook, 48% dos jovens associam-lhes riscos relacionados com questões de conduta e 30%, com o estabelecimento de contactos.

O estudo revela ainda que, em relação às preocupações com a utilização de redes sociais, são sobretudo as raparigas que percecionam os riscos, e são também elas que valorizam as questões de conduta e de contactos através da rede. Já os rapazes estão mais atentos à violência e pornografia.

De acordo com o relatório do estudo, as diferentes perceções consoante o género explicam-se pelo facto de os rapazes serem os que mais usam plataformas online de partilha de vídeos e os que mais recorrem aos jogos, estando por isso mais vulneráveis a imagens de violência e pornografia.

Já as raparigas, mais ativas nas redes sociais, estão mais preocupadas com questões de comportamentos, de devassa da vida privada e de reputação entre pares.

“Este tipo de riscos, que nós ligamos mais a condutas, aparece mais do que o aborrecimento que causa, por exemplo, ser contactado por um estranho, que é até uma preocupação muito mais presente na agenda pública”, destacou Cristina Ponte.

“Uma das conclusões a que se chegou é que são aqueles que já foram magoados que a seguir vão magoar. Temos de contrariar esta tendência de condutas que respeitam pouco os outros”, acrescentou.

A análise ao inquérito demonstrou também que a perceção dos riscos na rede muda à medida que as crianças vão crescendo, evoluindo de uma preocupação mais vincada com os conteúdos disponíveis para uma maior preocupação com condutas.

Dos exemplos dados pelo estudo, destacam-se as preocupações com o bullying, que vão aumentando até atingirem um “pico” por volta dos 13-14 anos, ou as preocupações com a partilha indesejada de informações privadas, como fotografias, que são mais comuns entre os mais velhos.

Menos mencionadas, mas também presentes, e em crescendo à medida que as crianças crescem, estão preocupações com conteúdos relativos a automutilação e suicídio, distúrbios alimentares, drogas, racismo e publicidade.

Realidade portuguesa

Os jovens portugueses entre os 9 e os 16 anos têm uma perceção maior do que os seus pares europeus quanto aos riscos associados a conteúdos violentos e pornográficos na Internet, revela o estudo “EU Kids Online”.

“Quando analisámos as respostas das crianças portuguesas o que notámos foi que Portugal apresentava valores acima da média europeia no que se refere aos conteúdos pornográficos e aos conteúdos violentos”, disse à Lusa Cristina Ponte.

De acordo com a coordenadora portuguesa, os jovens portugueses mostram preocupações com os riscos associados a conteúdos violentos e pornográficos numa percentagem de 27%, contra um valor médio europeu ligeiramente acima dos 20%. A conclusão consta do estudo divulgado hoje.

“A preocupação com os conteúdos pornográficos e violentos aparece mais nos países do Sul da Europa, com uma certa cultura católica e em que o uso da Internet não é tão intenso, como no Norte da Europa”, explicou.

A coordenadora adiantou também que cerca de um terço das respostas portuguesas se assemelhavam mais a “uma recomendação do que realmente àquilo que as crianças acham que pode incomodar uma criança da idade delas”.

“A resposta ao questionário parecia reproduzir uma frase que eles ouvem muito: ‘Não falar com estranhos'”, precisou.

Cristina Ponte destacou a diversidade das respostas a este inquérito, que levou crianças a manifestarem preocupações aparentemente tão elementares como entrar na conta da rede social Facebook e perceber que se tem um amigo a menos, a aspetos mais vastos e elaborados como a perceção de uma quase total ausência de privacidade pelo uso da rede.

“São problemas que mostram que as crianças e os jovens estão a viver uma experiência que os seus pais não viveram e que é uma experiência nova em termos de relações sociais”, sublinhou a coordenadora portuguesa.

Para Cristina Ponte, os resultados indicam uma necessidade de envolver pais, professores, governos e entidades com poderes regulatórios num processo que previna o acesso a imagens violentas.

“Ressalta também a necessidade de uma educação para os direitos das crianças no digital, o direito à sua boa imagem, o não ser maltratado pelos colegas. Esta é uma questão de educação e respeito que o Dia Europeu da Internet Mais Segura deste ano coloca com muita tónica”, afirmou.

Quanto ao envolvimento dos pais, Cristina Ponte pede uma atenção permanente aos sinais dados pelos filhos, um diálogo constante e uma mudança de atitude, já que entre os pais portugueses se denota uma tendência para negar comportamentos reconhecidos até pelas próprias crianças, como o envio ou a receção de imagens sexuais.

Iniciativas de alerta para os riscos da Internet assinalam Dia Europeu da Internet Mais Segura

Centenas de iniciativas no âmbito do Dia Europeu da Internet Mais Segura, que hoje se assinala, vão alertar os portugueses, sobretudo os mais jovens, para os riscos associados ao uso da rede.

As cerca de 500 iniciativas são promovidas pelo Centro Internet Segura (CIS), coordenado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), decorrem até dia 16, sob o lema “Direitos e deveres online: Liga-te, mas com respeito”, com o objetivo de “sensibilizar a população, em especial jovens e crianças, sobre como beneficiar em segurança das grandes oportunidades oferecidas pela Internet”.

Entre 4 e 8 de fevereiro, mais de 250 escolas e agrupamentos do ensino básico e secundário vão desenvolver iniciativas, envolvendo alunos e encarregados de educação, que “contribuam para a utilização crítica, consciente e segura da Internet”.

Parceira do CIS, a Microsoft associa-se à iniciativa promovendo, à semelhança do que já aconteceu em 2012, ações de sensibilização e formação sobre segurança online nas escolas, contando com 148 voluntários para o efeito.

O CIS vai ainda estar presente em lugares públicos com acesso à Internet, como bibliotecas, instituições de solidariedade social, centros de emprego, entre outros, também com o objetivo de alertar para os perigos da utilização da rede.

Ainda no âmbito deste dia europeu, o Instituto Português do Desporto e da Juventude vai promover um passatempo nacional sobre comportamentos seguros online, com início hoje e a duração de quatro dias, destinando-se a crianças e jovens entre os 5 e os 30 anos, que têm a possibilidade de ganhar cinco kits de prémios diários.

Consulte aqui o estudo completo.